Um despretensioso registo desta aventura nos antípodas…
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Mapa das férias
Ver Férias Austrália e Nova Zelândia num mapa maior
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
BALANÇO

O fascínio dos antípodas toca a muitos, percebe-se facilmente. Nesta linha, perguntam-me, invariavelmente, se esta foi a viagem da minha vida.
Interiormente – aliando razão à emoção - não hesito na resposta. Não, não foi.
A América do Sul pode continuar sossegada (como se lhe importasse para algo o que penso ou sinto), pois continua a ser o meu cantinho predileto neste pequeno globo.
ADOREI a Austrália, gostei ainda mais da Nova Zelândia (aliás, como estava à espera), mas a estes destinos de sonho (que o são, de facto) faltam várias “nuances” para merecer a predileção nos meus gostos de viagem.
Na verdade, ambos os países revelam-se tão perfeitinhos que quase me stressam (exagero, claro, mas é para que me entendam). Sinto falta do imprevisto, de “confusão”. Das dificuldades das quais nascem as boas histórias. Aquelas que não esqueceremos e nos “atropelamos” (eu, Carlos e Zé Luís) para contar aos amigos.
É impressionante o avanço social de ambos os países – no Ocidente (em Portugal nem vale a pena falar) temos tanto a aprender… - nomeadamente o sentido comunitário das pessoas e a sua integridade moral.
Do outro lado do planeta, valoriza-se o bem comunitário e não se brinca com ele. Sabem que todos têm a ganhar. Lá, a honestidade é uma inquebrantável questão de honra. Aqui, na chico-esperta Lusitânia, a seriedade parece um estigma atribuído apenas aos “totós”. E, com essa bela filosofia, afundamo-nos enquanto sociedade, sem que o fim do abismo se vislumbre no horizonte.
Em termos de simpatia, “kiwis” e “aussies” não ficam atrás dos primos canadianos. Aliás, foi com humor que várias vezes foi comentado, com diversos interlocutores, por que são os ingleses uns “idiotas” se todos os seus descendentes são simplesmente espetaculares? (sim, sei que é uma leviana generalização).
Se as pessoas são fantásticas, as paisagens da Nova Zelândia e Austrália cortam a respiração. Enchem o peito e espírito de qualquer um. Deslumbrantes Fiordes, imponentes vulcões, espantosos glaciares (Nova Zelândia), idílicos corais, o imenso outback, divinas praias (Austrália)… sobram motivos para visitar estes países, assim a carteira consinta – estou a preparar o meu coração para as contas finais que vão ditar o rombo que levámos nesta aventura.
Ainda assim, mesmo com todos estes justificados elogios, falta algo. Ou vários “algo”. Estas terras foram povoadas pelos europeus há “apenas” dois séculos e meio (nunca lá deveríamos ter posto os pés), sente-se a ausência de uma cultura própria.
Aborígenes e maoris, por milhares de anos tranquilos reis e senhores destas paragens, são agora mero isco, simplesmente forte atração turística, pois nos respetivos países a sua vida está longe de ser fácil. São marginalizados e isolados (nomeadamente os aborígenes), apesar das “regalias” sociais.
Desapontado pela ausência de uma cultura mais forte, que não fosse réplica de outras anglo-saxónicas, com uma identidade muito virada para o “fish and chips”, em todas as áreas. Aliás, metáforas à parte, gastronomia local é algo que também não existe. Podemos facilmente encontrar qualquer tipo de “fast food” ou comida asiática, mas não há tradição local em termos de gastronomia. Grande desilusão.
Falta ainda história. Da recente, dos últimos 200 anos, com maior ênfase nos últimos 40, há de sobra. Mas falo de História. Até nas pessoas. Saudades dos idosos nos quais podemos ler crónicas nas suas múltiplas rugas, mãos encardidas, no singular traje ou no profundo olhar…
Sinto falta de entrar num transporte público e, ao fim de umas horas, ter inúmeras histórias para recordar. Daquelas com textura, sabor, odor… que estimulam e amarram totalmente a plenitude dos nossos sentidos.
Bom, 2011 é já ali… e destinos não faltam. Até já…
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
UMA NESGA RUMO A CASA

No concorrido aeroporto de Doha – a Qatar airways ganha cada vez mais adeptos pelo mundo – sobravam indicações de “delayed” no painel das partidas. Tememos o pior. Sabíamos que por essa Europa sobravam aeroportos fechados e são aos milhares os que estão retidos, sem poder viajar. A Sofia e o Paul, que chegariam no mesmo dia que nós, estão retidos três dias em Londres.
Essa não era, certamente a melhor forma de terminar esta viagem. Ao todo foram 14 voos e empenar logo no fim era castigo imerecido.
A nossa escala era em Milão. E sabemos que o Norte de Itália costuma boicotar em força quem viaja de Inverno. Os olhos cresceram mais atentamente para o painel e, algo incrédulos, esboçámos um sorriso. Tímido.
Será que vamos mesmo ter sorte? Escapar por uma nesga?
A verdade é que à hora prevista, estávamos a fazer o check-in. Estava a correr bem. Mas nada impediria de que a situação mudasse já quando estivéssemos nos céus da Europa.
“Está tudo calmo. Nem sequer há neve”, queixou-se o Carlos, minutos antes de Malpensa nos estender a pista.
“Olha melhor, pois é impossível. Vais ver que quando descermos um pouco mais não faltarão mantos brancos”, respondi.
E assim foi. A zona de Milão estava completamente branca, mas, às 05:30, os deuses ainda dormiam, tal como a sua fúria. Escapámos de ventos e tempestades e pousamos serenamente num imenso manto branco. A primeira parte do problema estava resolvida.
Agora havia que deixar o Terminal 1 e correr para o Terminal 2, onde nos esperava um voo Easyjet. Operação bem sucedida. Mesmo com a confusão festiva de vários “tifosi” do Inter, que esperavam no aerporto a equipa que se tinha sagrado campeão do Mundo.
Juntos, estávamos autorizados a transportar 60 quilos. Malvadez, levámos 60,1 kg. Rimos com vontade. A menina do check-in não achou assim tanta piada. Nem quando, prestáveis, nos voluntariamos a retirar 100 gramitas de uma das malas. Há quem não acorde de bom humor…
Com pequeno atraso, acabámos por partir. Os próximos passos em terra firme, já seriam no Porto…
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
DOHA

Já tínhamos saudades das festas que por esse mundo fora se têm feito em nossa “homenagem”. Guardaram-na para a despedida. Em Doha, capital do cada vez mais pujante Qatar.
Tínhamos apenas 12 horas para conhecer a cidade. Pagámos o Visa para entrar no país e metemo-nos à aventura. Um minuto após entrarmos num autocarro, já nos perguntavam se éramos brasileiros. Falávamos a mesma língua, justificaram. Esclareci que do outro lado do Atlântico falam português, língua que é usada em vários continentes.
O jornalista/comediante, nosso interlocutor, sorriu com a aula. “Já tens um destes?”, perguntou-me de seguida, referindo-se ao cachecol do Qatar. Face à minha nega, ofereceu-mo. Com um sorriso ainda maior.
Saímos na central de camionagem (o caos em terra batida) e íamos apanhar novo transporte para o centro da cidade, mas as estradas estavam bloqueadas para a festa. Mesmo com mochilas pesadas, fomos a pé.
Milhares e milhares pelas ruas, orgulhosos com o dia da independência do seu país. Em Portugal, o 10 de Junho é apenas um feriado para muitos irem à praia, aqui vive-se efervescente orgulho nacional.

Nunca vi concentração igual de jipes. O petróleo dá, realmente, para muito. Foi assim que se conquistou o Mundial2022 de futebol, feito ainda bem vivo nos locais.
Ao som de ensurdecedoras businadelas constantes, caminhámos toda a baia, em quilómetros sem fim. Sheiks e sua trupe trajados a rigor, senhoras de burkha aos saltos e as que mostravam o rosto (mas com cabelo tapado) com bandeiras do Qatar estampadas em cada face.
A fome apertava e, enquanto caminhávamos, buscávamos comida. Em vão. Uma festa de arromba e NADA para comer em lado algum. A polícia sugeriu-nos ir até à imponente zona dos arranha-céus, que tinham vários restaurantes, mas, lá chegados, NADA. Ao longe, estas torres têm um efeito fantástico. No terreno, um local sem alma. Dinheiro, luxo, mas ausência total de alma.
O foto de artifício a cobrir toda a extensa baía foi imponente, mas nada que se compare aos nossos. Faltou-lhe “cor”. O fogo do nosso S. João faria corar os senhores do petróleo.

No fim, fomos jantar a um apinhado “souk” e depois, aos empurrões, lá conseguimos lugar num autocarro que nos deixou perto do aeroporto. No meio do transito infernal, não havia sinal de táxis.
Sabíamos que vários aeroportos na Europa estavam fechados devido ao mau tempo. O que nos reservaria Milão?
VÍDEO SENHOR EDGAR
BARCO QUE VOA, PEDRA FRIA, OLHOS PODRES…

São expressões simples como estas que nos fazem tremer por dentro. Há 500 anos, em Malaca, os portugueses deixaram raízes que perduraram até hoje. Mas a globalização bem como o desleixo e desinteresse total das autoridades portuguesas podem deixar acabar esta história de amor de luso-descendentes pela pátria que sentem como sua, mesmo nunca tendo pisado solo nacional.
Sem qualquer apoio de Portugal, os jovens malaios luso-descendentes esquecem as suas raízes. Entendem o português, mas começa a ser difícil falá-lo. Depois, naturalmente, virá o esquecimento total… e Malaca passará definitivamente à História.
Barco que voa (avião), pedra fria (gelo) ou olhos podres (olheiras) são expressões que pudemos ouvir dos senhores Pedro e Edgar, ambos septuagenários, e que orgulhosamente falam e vivem a sua portugalidade.
Impossível não nos emocionarmos com estas manifestações de afecto à pátria de gente simples do outro lado do mundo que apenas sonha em não ser esquecida deste lado do Atlântico.
Não é complicado, nem dispendioso ajudar esta gente, uma comunidade essencialmente piscatória de cerca de 1.300 elementos. Precisam de coisas tão simples como livros, manuais escolares ou roupas apropriadas para os quatro ranchos folclóricos que dançam e cantam temas portugueses. E meios para financiar diversos projectos, que a Bárbara tão estoicamente tem promovido.
A ASSOCIAÇÃO CULTURAL CORAÇÃO EM MALACA e o blogue povos-cruzados.blogspot.com têm feito o trabalho que as autoridades nacionais teimam em esquecer, mas ainda há esperança de manter e recuperar laços seculares com parte da nossa história mais brilhante enquanto Nação.
Quem quiser, puder ou souber de alguma forma de ajudar (qualquer apoio é mais do que bem vindo), basta contactar a Bárbara através do blogue ou da associação. Ou do facebook. A Associação Malaca está nos meus amigos.
Mal seja possível, teremos vídeo da Bárbara na primeira pessoa.
PORTUGUESE SETTLEMENT - MALACA

Tivesse a retirada sido feita por outro caminho e a nossa visita à comunidade portuguesa de Malaca ficaria claramente aquém das nossas expectativas.
Disse ao Zé Luís que estava na hora de retirar e furei por um novo caminho para o regresso à estrada principal quando uma doce, mas determinada voz feminina nos interrompeu.
“São portugueses?”, questionou Bárbara, com um sorriso do tamanho da sua simpatia. Imediatamente nos aproximámos, foram feitas as apresentações e em segundos a conversa já estava encadeada, sem fim à vista.
A pressa de seguir foi substituída por tranquilo almoço no restaurante do senhor Pedro (malaio, mas com raízes e alma lusitana), ao surpreendente som de cantares alentejanos.
Juntamo-nos à mesa com mais três professores locais – uma das docentes falava igualmente perfeito português – e ficámos a conhecer o trabalho da Bárbara, a ASSOCIAÇÃO CULTURAL CORAÇÃO EM MALACA, da qual é grande impulsionadora. http://povos-cruzados.blogspot.com/
Em minutos, parte da comunidade foi desfilando pelo restaurante e ficámos impressionados como malaios luso-descendentes que jamais estiveram em Portugal, mas falam a nossa língua, “vestem” os nossos costumes e sentem amor impressionante pela pátria.
Mais surpresos – ou talvez não – com o esquecimento, ostracismo a que esta comunidade de cerca de 1300 elementos é vetada por Portugal. Mais uma vez, a história das autoridades que tanto esbanjam em projectos de interesse duvidoso e que nada fazem para preservar a herança desta gente, a nossa gente, fiel há 500 anos, que se completam em 2011.
(Aguardo pelo Carlos para fotos do momento lol)
domingo, 19 de dezembro de 2010
MALACA

Estar em Kuala Lumpur e não ir a Malaca é ainda mais grave do que ir a Roma e não ver o Papa. Não quisemos cometer esse vil pecado.
Garantiram-nos que em apenas duas horas estaríamos lá. É verdade, não fosse o facto de, antes, termos de apanhar o mono-rail e depois o comboio até à central de camionagem, já na zona periférica de Kuala Lumpur. E, chegando a Malaca, ainda tivemos de apanhar mais um autocarro…
Património Mundial da UNESCO desde 2008, destaca-se da presença portuguesa “A Famosa” (a Porta de Santiago da Fortaleza de Malaca), um dos locais mais visitados e requisitados para fotografias, e a igreja de São Paulo.
Sentir a nossa história do outro lado do mundo tem sempre um significado especial. Mostra-nos como fomos empreendedores e determinados quando o mundo, enquanto conceito global, ainda estava em fase embrionária, de descoberta. Pena que nesta pátria tantas qualidades se tenham diluído, com o tempo e ambição de mentes menores.
Sob persistente chuva, percorremos a zona a pé e as t-shirts que envergávamos, propositadamente alusivas a Portugal, foram pretexto para sermos abordados várias vezes. Esta gente não esquece a passagem lusa por estas terras…

Gostei particularmente dos folclóricos riquexós, densamente ornamentados com coloridas flores e todos – sem excepção – com música própria, qual delas a mais imprópria para os nossos ouvidos ocidentais. Mas perfeitamente adequada para o cenário.
Foi em 1511 que Afonso de Albuquerque partiu de Goa (Índia) com cerca de 1.200 homens e perto de 20 navios para conquistar esta base estratégica para a expansão lusa nas Índias Orientais. Em 1641 os holandeses correram connosco, até cederem Malaca aos ingleses em 1825, por troca com uma outra cidade que lhes interessava mais, na ilha indonésia de Sumatra.
Kuala Lumpur

Abandonar Bali foi complicado. Não só pelo amargo de quem sente que havia muito mais para descobrir e experienciar, mas igualmente pelo trânsito infernal que pára a ilha a determinadas horas. Foram duas para fazer meia dúzia de quilómetros até ao aeroporto. Tivemos, por isso, de sacrificar a visita ao mais belo dos templos de Bali.
O atraso no voo fez com que chegássemos a Kuala Lumpur muito tarde. Na caminha só às 03:30, mas horas depois já estávamos a explorar a pujante capital da Malásia.
Quando unidos, calor e humidade fazem boa dupla para infernizar a vida ao viajante/turista. Só de ar condicionado se consegue aguentar alguns momentos. Mas é preciso mais do que isso para nos travar.
Desta vez, a festa na cidade foi madrasta para nós. A realização de importante prova automobilística na zona nobre da “confluência enlameada” (significado malaio para Kuala Lumpur, referindo-se à junção de dois rios, há século e meio pejados de minas) fez com que esse lado nos fosse vedado. Autenticamente. Tudo protegido até aos dentes para que o Grande Prémio da Malásia corresse na perfeição.
Foi de mono-rail que vimos parte da pujança do “tigre” asiático. Nada como apreciar das alturas uma ampla cidade que cresceu para o ar como poucas. Sobram exemplos de arquitectura arrojada e futurista, mas a que mais nos impressionou foram as torres Petronas, um dos edifícios mais altos do mundo, com 452 metros distribuídos em luminosos 88 andares.

Ao longe ou “cara a cara”, é impressionante a projecção deste “monstro” inventado pelo arquitecto argentino César Pelli. À noite, torna-se incomparável. Tem uma “luz” especial…
As torres da petrolífera malaia ficam na zona do triângulo dourado, onde Kuala Lumpur tem mais vida. Dia e noite, com um ritmo ímpar. Foi aí que nos instalámos.
O bairro chinês, que pudemos percorrer a pé, à noite, quando tem mais interesse, pelo seu animado mercado que funciona até tarde, é outro dos muitos motivos de interesse de uma cidade que exibe modernismo como poucas.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
BELEZA INTERIOR

Bali é como alguns humanos, também tem beleza interior. E foi motivados por essa descoberta que alugámos carro com motorista. Acabámos por perceber que foi, sem dúvida, a melhor opção. Nas estreitas e sinuosas estradas não há regras. Vale tudo. Todos ao monte e fé nos três deuses hindus (a Indonésia é maioritariamente muçulmana, mas Bali é uma ilha também em termos religiosos).
Ubud é opção para um turismo de desprezo pela praia e devoção à natureza. Como tudo na ilha, já muito comercial. Demasiado. Foi interessante a experiência com os macacos (às centenas num parque central, sem vedação e em contacto permanente com os visitantes). Um dos atrevidos no Mandala Wisata Wenara Wana viu volume no bolso dos meus calções e tentou roubar o que suporia ser comida. Não conseguiu. Ajudei-o e libertei-o do botão-obstáculo. Apenas encontrou um colorido mapa de Bali. Não ficou desapontado. Aliás, mais dois macacos vieram disputar a relíquia, que segundos depois já estava rasgada em pedaços mil.

Os terraços de arroz também são muito interessantes, embora seja uma paisagem “pequena”. É um feliz oásis na ilha em que é difícil ter privacidade. São dois milhões de balineses numa ilha pouco maior do que o Minho.
Em Kintamani, um vulcão imponente desliza suave até a um lago em cujas margens se situam pequenas, mas deliciosas povoações. Também aí, o comércio está ao rubro, com vendedores de rua a perseguir os turistas na tentativa de despachar qualquer coisa.
No meio de todo este encanto, pena que aqui também impere a corrupção da polícia. Nas barreiras por onde íamos passando, lá ía ficando uma nota.
“Senão, criam-me problemas constantes sempre que aqui passar”, confessa-nos o motorista.
PRIMEIRO IMPACTO EM BALI

Até à Europa e resto do mundo chegam apenas imagens de estonteante beleza. Bungalows sobre cristalinas águas guardados por esplendorosas palmeiras, vulcões imponentes, SPA's que nos levam a outro mundo... No terreno, Bali não é apenas o conto de fadas que é vendido como sonho inigualável.
Optámos por Kuta. Onde atracam boa parte dos australianos e alguns japoneses. Os europeus vão para outras zonas da ilha, asseguraram-nos.
O 100 Sunset Resort revelou-se uma excelente escolha. Apanhámos um apartamento por um terço do preço habitual (investimos “apenas” 75 euros por noite para um apartamento amplo e luxuoso com varanda para a deliciosa piscina).
O pessoal do hotel, do mais simpático possível. À parte disso, um cocktail de oferta à entrada, bem como uma massagem aos pés, a receber junto à piscina, sob uma queda de água. Tirámos o devido proveito das instalações geridas por um jovem francês.
Legian é a rua onde todos vão parar. Bares, discotecas, restaurantes e lojas sucedem-se a ritmo vertiginoso. Tal como os turistas. Aliás, foi aqui que há uns anos um atentado matou mais de uma centena. Uma das vítimas era portuguesa. No local foi erguido um memorial com o nome de todas as vítimas. Que o monumento seja fotografado, tudo bem. Agora que as pessoas se metam na fotografia com um sorriso de orelha a orelha (não vejo o prazer de recordar dessa forma um acontecimento trágico) é que já ultrapassa a minha compreensão. Adiante...
A temperatura da água do mar varia entre sopa e chá. Debatemos apaixonadamente o assunto, mas não chegámos a uma conclusão. Limitámo-nos a gozar o momento. Giro o facto de ser proibido nadar, sem que praticamente houvesse ondas. Fizemos ouvidos moucos. Divertimo-nos à grande.
MISTERIOSA MALA

“Sabem onde posso carregar o telemóvel?”, perguntou a jovem. Olhámos uns para os outros, encolhemos os ombros e, como bons portugueses, demos várias sugestões, mesmo não fazendo a minima ideia da resposta adequada.
“Estás a chegar ou a partir de Darwin”, questionei.
“Nem uma coisa, nem outra. Porquê?”, indagou.
“Estás com a mala...”
“Hã... isso é porque receio que ma roubem”, esclareceu.
Bom, esta doce menina não batia certamente muito bem da bola. Pelo andar, percebemos que a mala pesava. E não era pouco. Estava no mesmo hostel que nós, onde deixámos o portátil e outros objectos de valor no quarto. Pois bem, esta australiana de Brisbane nem a mala fechada a cadeado arrisca a deixar no quarto.
Deu para nos rirmos um pouco. As nossas manias, comparadas com esta, são queijo...
DARWIN

Os australianos têm reconhecida fibra, mas os do Território do Norte parecem ainda mais duros de roer. Darwin, que não prima pela beleza estética ou animação, é bom exemplo disso.
Na II Guerra Mundial foi arrasada pela aviação japonesa. Reergueu-se, reprojectada. Em 1974, o ciclone Tracy mostrou o que arrasadores 250 km/h podem fazer. Voaram 9.000 casas e morreram mais de 60 pessoas. Tudo tranquilo, reorganizaram-se ainda mais fortes.
Instalámo-nos na rua mais animada da cidade – polvilhada de bares e restaurantes – e fomos ao Monsoon, onde um um grupo tocava ao vivo. Demasiada qualidade para o número de pessoas na plateia.
No dia da partida, que era apenas ao fim da tarde, descobrimos o melhor de Darwin: Waterfront. Uma zona residencial de excelente nível, com um jardim cativante e uma piscina publica com praia e ondas artificiais, nas quais até se fazia bodyboard.
Excitados, fomos almoçar de imediato, buscar o carro, trocar de roupa e mergulhar naquela maravilha. Instalados em belas bóias, navegámos horas sem fim. A subir e descer constantemente, ao sabor das ondas. O descuido valeu uns escaldões que esperemos já sejam passado em Portugal.
Em zona tropical como esta, as tempestades não são assim tão invulgares. O céu transbordou de cinzento até cascatas de chuva correrem com a malta do complexo. Fomos os últimos a abandonar o navio... Aliás, fomos corridos do complexo.
Ainda húmidos, rumámos ao aeroporto, devolver carro, trocar roupa, mais 1001 burocracias para sair do país e novo voo...
TOURIST VIP REST HOTEL

Acertar com a entrada do parque/recepção apenas à terceira tentativa foi o melhor que nos aconteceu neste “oásis” do outback. Ainda estamos para perceber como um local destes está associado a alguma organização credível de estadias na internet. Adiante...
O resultado da pesquisa para Tennant Creek resumiu-se a este belo pardieiro – safavam-se os quartos, não muito grandes, mas limpos, com frigorífico e ar condicionado – gerido por um velhote meio surdo, com pronúncia indecifrável e de humor pouco social.
Todo o tipo de bicharada – as catatuas e papagaios faziam parte do “zoo” privativo – que voe e rasteje estava bem representado neste local de culto para os “Very Innocent People” (VIP), como nós. Por falar em rastejar, na cozinha um grande cartaz avisava para as 10 cobras venenosas que se podem encontrar na zona. Animador...
Já a tentar dormir, um grupinho misto no quarto ao lado fez festa até alta noite. Agradecidos, não podíamos ficar atrás. Tirámo-los da cama apenas um par de horas depois.
O prometido pequeno almoço não passou disso mesmo: aliás, curioso o facto do check out ser obrigatório até às 10:00, mas só a partir das 11:00 estar “alguém” na recepção. Será que o breakfast se fazia sozinho e não sabíamos?
Bom, o sol ainda esfregava os olhos e já estávamos na estrada para mais 1.000 quilómetros, que fizemos sem grande sofrimento, com almoço e passeiozinho por Katherine.
No meio do espanto pelas inesperadas belas paisagens, escapou-se-nos a “árvore Stuart”, em Daly Waters. Stuart, um explorador soldado escocês, foi o primeiro a cruzar o continente australiano, em 1862. Saiu de Adelaide e chegou ao Mar de Timor. Em Daly Waters, perdido e numa altura em que pensava que não ia sobreviver ao outback, gravou o “S” do se nome num eucalipto gigante.
Os poucos que se aventuram de carro nestas paragens ainda podem apreciar a sua escassa caligrafia.
TENNANT CREEK

Os 400 quilómetros entre Ayers Rock e Alice Springs não nos satisfizeram. Nas viagens pelos vários continentes, estamos habituados a conduzir por locais remotos, algo que nos dá um gostinho especial.
Foi assim que prescindimos de voar 1500 quilómetros até Darwin num par de horas para fazer essa viagem por terra durante dia e meio. Valeu a pena.
Afortunado pelo nível invulgar de chuva, o Território do Norte ganhou uma nova beleza e isso redobrou o nosso prazer na estrada. Face às grandes distâncias entre os poucos povoados, é raro encontrar carros pelo caminho. Aliás, imponentes camiões de três atrelados foram a nossa companhia mais regular. Podem ter até 52,5 metros de comprimento...
Abandonámos Alice Springs às 16:00 e decidimos experimentar Tennant Creek para pernoitar. Chegámos umas cinco horas depois. E a surpresa não foi das melhores...
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
ISTO É “TUDO NOSSO”

“Onde estão as pizzas?”, perguntei, pensando que nos teríamos, mais uma vez, esquecido de algo.
“No frigorífico”, responderam, em uníssono, Carlos e Zé Luís.
Tive dificuldades em parar uma longa gargalhada. Realmente, isto parece tudo nosso.
Sempre que é possível e o rombo não é imoral, procurámos internet. Em Alice Springs, a escolha recaiu na Pousada da Juventude. 10 dólares e podemos estar ligados 24 horas. O “problema” é que temos de estar num hot spot. Ou seja, temos de estar no local onde contratamos o serviço.
Havendo muitas coisas que precisávamos fazer/ver na rede global, instalámo-nos pelo tempo suficiente para ter fome. Lá fomos ao supermercado. À “patrão”, trouxemos ingredientes suficientes para cozinhar. Em casa alheia. Como se isso não bastasse, convidámos o Miguel. Travámos ainda confiança com um casal italo-francês. Educadamente, não podiam comer gelado e assim deixaram os habituais dois quilos de cookies apenas para nós os quatro. Lá fizemos o sacrifício.
Na manhã seguinte ainda voltámos. Mesmo sabendo que não estávamos lá instalados – a menina fez-nos a reserva para o nosso poiso seguinte e ficou esclarecida – as recepcionistas já os cumprimentavam como se fossemos dos melhores hóspedes do mundo.
Apenas para que conste: há meio século, Alice Springs tinha apenas 4.000 habitantes e não havia visitantes/turistas. Em 1954 a festa acontecia quando o comboio semanal vinha de Adelaide com o correio, jornais, filmes e peças para automóveis. Era um acontecimento que juntava toda a parca população.
A cidade que deve o nome à mulher do director de telégrafos de Adelaide mudou muito: agora anda perto dos 30.000 habitantes e por ano recebe mais de 400.000 turistas. Em boa hora contribuímos para a média. Vale bem um saltinho.
ALICE SPRINGS

Apesar de distar de algo mais de 400 quilómetros de Ayers Rock, Alice Springs costuma ser a cidade que serve de base a quem visita o Uluru. Claramente mais barata e com uma vida que Ayers Rock decididamente não tem. É outback puro.
As cinco horas de viagem terminaram com a primeira observação de aborígenes, alegadamente no funeral de um dos seus. Estavam reunidos no cemitério à entrada da cidade.
A segunda maior cidade do Território do Norte (a seguir a Darwin) está muito vocacionada para o turismo. Os seus 28.000 habitantes vivem dos que procuram experiências diferentes e oferecem-lhes tudo o que podem desejar para que a estada seja recordada. Sobram igualmente as lojas de souvenirs, mas curiosamente, foi aqui, onde havia a maior oferta, que nos baldámos completamente.
Simpsons Gate foi o primeiro passeio escolhido fora da cidade. Um local muito aprazível, com a montanha a ser abruptamente interrompida. Mas apenas uns 15 metros, até continuar, imponente.
Seguimos depois para Standley Chasms em busca de piscinas naturais, mas, à entrada do complexo privado, os funcionários comunicaram-nos que estavam a fechar. Antes da hora, mas tudo bem... tentámos voltar no dia seguinte, mas acabámos por perceber que as piscinas naturais ficavam, afinal, um pouco mais distantes. Como ao terceiro dia em Alice Springs íamos partir para norte (500 quilómetros até Tennant Creek), optámos por não o fazer.
Miguel Freitas, um bacano madeirense que viveu muitos anos em Lisboa e ano e meio em Sydney até se radicar em Alice Springs, foi o nosso cicerone. À noite, levou-nos a três dos melhores bares. Curtimos boa música ao vivo no Rock's, seguindo-se pezinho de dança no Bo's Jungles. Estávamos mesmo a precisar.
O Miguel também estava a “morrer” por comida portuguesa. Ainda duvidou nas nossas capacidades, mas foi vê-lo qual “leão” a aprovar as duas iguarias que lhe apresentámos. Retribuiu a gentileza com uma fantástica posta de Corn Beef. Com puré e um molho à maneira.
Apesar de estar há dois meses a viver em Alice Springs, fomos nós a mostrar-lhe os primeiros kangurus. Às 17:30, como prometido, no parque junto ao telégrafo onde fizemos umas boas caminhadas. Foi muito interessante avistar uns 25/30 kangurus em ambiente puramente selvagem.