Um despretensioso registo desta aventura nos antípodas…

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

GOLD COAST


Em 1933, a pacata Elston cansou-se do nome. Tinha praias fantásticas, uma beleza natural ímpar, mas naquele tempo nenhum turista viajaria centenas de quilómetros em condições difíceis so para visitar a zona.

As suas gentes juntaram-se e aprovaram a mudança de nome. Elston passou à história e assim nasceu Surfers Paradise. O nome não podia ter sido melhor escolhido. Hoje em dia, grandes nomes do surf mundial preparam as suas habilidades nestas águas, agora apinhadas de turistas. Demasiados.

Esta mudança de nome acabou por atrair cada vez mais pessoas e foi assim que as pacatas povoações vizinhas também conquistaram um lugar no desenvolvimento. Hoje em dia a Gold Coast é formada por um conjunto de cidades ao longo de cerca de 50 quilómetros de costa. Só em 1962 surgiu o primeiro prédio, mas agora Surfers Paradise já praticamente não tem casas térreas.

Consta que barões da droga australianos, criminosos japoneses e mafiosos russos, entre outros, vivem em aparatosas mansões por estas paragens. Por isso, sei que bater com o carro num Mercedes, BMW ou Porche de alta cilindrada pode ser perigoso. Melhor não discutir quando se trata de um carro de luxo. Apenas arriscaríamos a sair do carro se fosse uma das várias estrelas da sociedade australiana que optou por ter um retiro neste animado e belo cantinho do país.

Foi aqui que o avião nos trouxe, para repouso activo de uns dias.

AUCKLAND

Muitos julgam, erradamente, que esta é a capital da Nova Zelândia. De facto, Auckland é “apenas” a maior e mais desenvolvida cidade deste país dos antípodas. E, sem dúvida, a mais cosmopolita. O local que concentra mais visitantes. Felizmente, há muitos turistas que só muito tarde descobrem o éden que é a ilha sul, boa parte dela património natural da UNESCO. Assim acreditámos que não a chegarão a estragar...

Instalámo-nos a 20 metros da rua principal, onde o movimento é perpétuo. Também aqui, os restaurantes asiáticos ganharam a batalha gastronómica. Sobra a oferta. E multiplicam-se também os orientais nas ruas da cidade, que desce orgulhosa e imponente até ao mar.

Com a água no cenário, o porto dá outra vida, uma nova côr a Auckland. É nesta zona onde se sucedem bares de extremo bom gosto (todos com possantes porteiros maori), polvilhados de jovens e mais experientes, todos com a certeza que é ímpossivel passar uma noite sem diversão. A proibição de beber álcool na rua cai que nem uma luva. Grande “noite”, a de Auckland.

Tal como no resto do país, tudo parece natural. As pessoas são extremamente expansivas e comunicativas. Em escassos minutos, parece que conhecemos o interlocutor neozelandês de há já algum tempo. Esta gente faz-nos sentir em casa.

Já no contrariado regresso a casa – tínhamos de acordar às 03:30 – cruzámo-nos com um cromo italiano que se metia com tudo quanto era do sexo feminino, independentemente da beleza ou idade.

Ciao bella. You are so beautyfull. Give me a kiss”, dizia, continuadamente, a tudo o que circulava em duas pernas e não tinha barba. Falámos animadamente durante longos minutos e, mesmo algo alcoolizado, teve o bom senso de nos alertar para uma exposição de fotografia ao ar livre.

Tratava-se de “A Terra Vista do Céu”, que já a tínhamos visto em Paris e Copenhaga. Um espantoso trabalho de fotografia com imagens/reportagem belíssimas sobre tudo o que de bom e belo (e nefasto, igualmente) o nosso planeta tem (aguardei uns anos, mas a edição portuguesa já está lá em casa).

Quis saber muito de Portugal. E a verdade é que revelava já um conhecimento assinalável da realidade do nosso país.

Entretanto, encantou-se com pouco, uma vulgar espanhola com quem ficou a falar até desaparecermos no horizonte.

Programámos a ida para o aeroporto apenas com o tempo suficiente para lá chegar e fazer-mos o check in. Foi arriscado (acabámos por verificar que o foi mais do que pensávamos), mas confiámos no nosso potencial. Carro devolvido, últimos passageiros a entrar no avião de volta à Austrália.

COROMANDEL

Os 900 quilómetros contratados com a rent a car foram amplamente superados. Agora que registo esse facto, recordamos que não fazemos ideia quantos fizemos a mais. O limite já tinha sido ultrapassado enquanto “navegávamos” em Coromandel. Em boa hora.

Este cantinho paradisíaco foi, para nós, o must da ilha norte. Uma região desenhada em deliciosas curvas e contra-curvas em que o olhar está permanentemente a ser surpreendido por visões cada vez mais belas. Verdes... azuis... castanhos... a trajar de gala uma natureza tão impressionante quanto bela.

Apertados de tempo, acabámos por não usufruir, como desejávamos, de todo o esplendor da vasta Coromandel. Apenas algumas fotos e imagens para recordar o momento. Quantas vezes parámos em zonas proibidas e algumas vezes não tão seguras só para poder captar o momento, usufruir dele por breves instantes.

Depois de deambular por entre montanhas, as nossas expectativas mantiveram-se claramente em alta com uma costa de fantasia, tal como a estrada que acompanha o aconchegante mar durante quilómetros sucessivos.

Aqui respira-se natureza. Aqui, as pessoas sorriem como em poucos lugares.

Era sexta-feira e, a caminho de Auckland, cruzámos com sucessivos carros com o seu barco atrelado. Este lugar faz-nos sonhar. Coromandel transpira ilusão e qualidade de vida.

ROTORUA


Um ícone turístico suportado na cultura Maori. No entanto, mais uma vez, tirando os espectáculos diários com os nativos da Nova Zelândia, é complicado encontrar representantes deste nobre povo no seu quotidiano de rua.

Inevitavelmente, um lago serve de suporte a esta cidade, que vive de um turismo intensivo. Nas ruas geometricamente traçadas sucedem-se as lojas de souvenirs, pouco variando na oferta ao público. Acabámos por entrar na onda e gastámos alguns dólares.

Os edifícios são térreos e quase tirados a fotocópia. O Zé Luís já tinha uma “guedelha” descomunal de quase um centímetro, pelo que optou por reduzi-la a um milímetro.

Nas redondezas sobram actividades para distrair o povo. Os tais vulcões, rios termais, geisers...

Mais um jantar culminado com dois quilos de gelado de cookies (ainda estou para ver quem vai engordar mais) e um pequeno almoço que incluiu a segunda parte do triunfo do FC Porto em Viena frente ao Rapid. Maravilhas da internet...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Rumo a Auckland

285 ou 58 dólares. Essa era a escolha. Ambas para um carro classe C.

Quando a tentadora proposta me foi apresentada, sorri interiormente e fui chamar o Zé Luís. Rapidamente fechámos negócio.

“Não estão interessados em levar um carro em apenas dois dias para Auckland? Apenas pagam seguro, se assim desejarem. E quilómetros em excesso”, tinha-me dito a menina. Na NZ é normal os turistas alugarem um carro num ponto e deixa-lo noutro, pelo que as rent a car precisam de quem os leve de regresso.

Tínhamos precisamente dois dias e o aeroporto de Auckland era exactamente o nosso destino final. Não cheguei a esboçar ar de dúvida. Adiantámos logo serviço e ficou combinado levantarmos a viatura “surpresa” ao romper da aurora.

Na manhã seguinte já rumávamos a norte ao som de um moderno Toyota Corolla, com apenas 4.987 quilómetros. Estes neozelandeses são mesmo crédulos... :)

Em pouco tempo, constatámos o que já sabíamos: já tínhamos saudades da ilha sul. Por tudo. Aqui, a norte, há o triplo da população. Isso significa mais carros na estrada (onde param as autoestradas? SCUT??), casas a pintar a paisagem e.... PESSOAS!!

Três crateras de vulcões, quentes regatos termais (inexplorados pelo comércio) frequentados por meia dúzia de conhecedores, geisers e muito verde manteve-nos o sorriso e moral até Rotorua, a “capital” Maori.

Wellington de Honra


Quando enlouquecemos e decidimos ir a um museu – quando estamos apertados de tempo, outras prioridades se levantam – obviamente que optámos por ver o melhor. Te Papa é único na forma de contar a história da Nova Zelândia, um ex-líbris de Wellington, a capital do país (não, não é Auckland).

Para melhorar o cenário, no dia era inaugurada uma exposição de pintores europeus. Por isso, o museu convidou todos os amigos de Te Papa, entenda-se, os patrocinadores da instituição. E não eram assim tão poucos. Aqui, a cultura leva-se a sério. Valoriza-se.

“Não, hoje não podem ver o museu. Sempre que temos uma exposição nova, o dia é dedicado aos que nos ajudam. Mas sempre podem beber algo”, disseram-nos, amigavelmente.

Mesmo não estando trajados a rigor – bem pelo contrário, pois mal tínhamos dormido e estávamos com ar “pé descalço” - lá tivemos de dizer não a um bom champagne. Não fomos tão cerimoniosos na hora do suminho de laranja e de provar três tipos de chocolate, com um gostinho dos céus.

Continuando o passeio ao longo do porto, fomos desafiados por uma autoridade nacional a contribuir com uma mensagem criativa de defesa e preservação dos oceanos. Tínhamos muito giz e um passeio enorme para dar largas à nossa imaginação. Não foi preciso muito.

“WE LOVE FISH. SAVE THE OCEANS” foi a mensagem que deixei, acompanhada de um tosco barco chamado Portugal. Curiosa, a sorridente e afável organizadora do evento veio falar com o promissor artista. Surpresa com a nossa proveniência, recordou a “bela, mas efémera” passagem pelo nosso país.

Wellington é uma cidade que se vê bem em uma tarde. Hummm... talvez meia. Por isso não nos demorámos.

"Fapiau"


De todas as palavras do super extensivo e complexo mandarim, “fapiau” era certamente a que as nossas convidadas menos esperavam ouvir.

Tinha-se passado uma semana e Vicki sabia que tinha novo jantar à espera em Christchurch. Desta vez seria peixe. Trouxe uma amiga, Erika, também chinesa. Igualmente a tentar, sozinha, singrar num outro país (*).

O espanto pelo “fapiau” foi tal que repetiram a palavra diversas vezes durante a noite. Sempre com riso descontrolado. Na verdade, e se invertermos a situação, esperamos que os estrangeiros que apenas sabem três palavras de português consigam dizer olá, bom dia, obrigado.

Pois bem, dos dois gratificantes meses passados na China em 2008 lembrava-me de “Ni hao” (olá), “xie xie” (obrigado) e “fapiau”, que significa... factura.
O impacto da China no mundo global – aspectos positivos e negativos – foi o tema que dominou a conversa. É sempre interessante trocar pontos de vista, mesmo que o tema não seja do agrado de todos.

Sabendo que íamos madrugar no dia seguinte, levámos as donzelas a casa. Na manhã seguinte deixaríamos o Eden que nos encantou para voar até à desconhecida ilha norte.

(*) O objectivo dos asiáticos (e não só) na Nova Zelândia e Austrália é quase sempre conseguir a cidadania. Aí, tudo fica mais fácil para trazer para o país os familiares directos, com o ciclo a reproduzir-se sucessivas vezes. É assim que a Nova Zelândia e Austrália ficaram quase apinhados de asiáticos.