Um despretensioso registo desta aventura nos antípodas…

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

OBRIGADO, OBRIGADO, OBRIGADO...



Eram seis da manhã em Queenstown (sete no estado de New South Wales, apenas três ruas antes) e tínhamos deixado a Sofia e o Paul nos respectivos trabalhos. Ficámos com o carro deles para dar umas voltas.

Tudo estava fechado, pelo que íamos ver a praia nas primeiras horas da manhã. Apercebemo-nos, então, que ia haver uma espécie de concerto, pois estavam montados dois pequenos palcos. Num instante, percebemos que era o programa Today do canal 9NEWS. Em directo. Ficámos para ver como era.

Não precisávamos ser os melhores observadores do mundo para entender que a tenda dos salva-vidas da localidade oferecia cachorros quentes. E estava disponível para donativos. Veio mesmo a calhar. Umas moedas (apenas vimos outra senhora a dar dinheiro) e lá fomos buscar um cachorrinho. Minutos depois, morfámos o segundo. Ao lado, optei por um chá orgánico, enquanto o Zé Luís e o Carlos preferiram cafés XPTO. Sim, também à pala.

Enquanto esperávamos pela bebida, fomos brindados com um saco que continha um maravilhoso iogurte, cereais e... desodorizante.

Satisfeitos com a inesperada e sempre bem vinda hospitalidade, fomos guardar os presentes ao carro, mas no caminho tivemos de nos desviar três metros para recolher um batido de meio litro. Ao mesmo preço...

Ouvimos a actuação de um grupo que lidera o top de vendas da Austrália – esquecemos o nome do grupo, mas não a violinista asiática – e, como o sol começava a queimar, agradecemos os dois bonés diferentes oferecidos pelo 9NEWS.

O dia começou bem e ainda nem imaginávamos o feliz engano a nosso favor no santuário de vida animal.

LUCKY GUYS




Não podem entrar sem este autocolante no peito. Ponham-no e mantenham-se unidos. Vamos”.

Estas indicações deixaram-nos confusos, mas, intrigados e curiosos, seguimos o simpático senhor.

Estávamos à porta de um santuário de wild life a alimentar simpáticos e atrevidos pássaros multicoloridos. Discutíamos se íamos mesmo entrar, pois 49 dólares “é dinheiro” e já tínhamos usufruído de experiência fantástica com peixinhos, aves e animais terrestres em Sydney.

Está um a mais, mas não deve haver problema. Vamos a uma apresentação de 20 minutos e depois vamos ver crocodilos, koalas e Kangurus...”, acrescentou.

Ficámos ainda mais intrigados e começámos a pensar que algo estaria... errado. Estava uma pessoa a mais no grupo, mas nós éramos... três! Significa isso que outros dois tinham ficado algures...

Pegámos em cobras, sentimos a textura de um lagarto e vimos uma ave com enorme boca de sapo. No fim, como prometido, lá fomos aventurar-nos pelo parque, tão diversificado e grande que tinha um pequeno comboio para transportar os visitantes pelas diversas zonas.

Leandro era brasileiro e estudava inglês em Byron Bay. Por ele, ficámos a saber que o grupo era formado por estudantes de todo o mundo que faziam o mesmo na sua escola. Como eram de várias turmas, não se conheciam entre si.


Moral da história: fomos, de alguma forma, confundidos e só mais tarde percebemos o filme.

Aproveitámos a benesse, almoçámos com o grupo e depois seguimos a nossa vida, enquanto os estudantes voltaram no autocarro da escola para Byron Bay.

Foi inesquecível estar cara a cara com kangurus, com quem “privámos”. Pudemos tocar-lhes e, se quiséssemos, até abraçá-los. Quanto ao gigantesco crocodilo, não gostava de o encontrar num rio. Os koalas dormem umas 20 horas por dia e são muito lentos e pachorrentos, para não gastar a pouca energia que a sua pobre dieta lhes fornece. Ainda assim, fomos felizardos e vimos vários em acção. Incluindo crias.

Sabendo o que soubemos no fim da visita – que incluiu múltiplas aves, cobras e vários outros animais – os 49 dólares seriam muito bem aplicados.

BYRON BAY



O local já me tinha sido amplamente recomendado por mais do que uma pessoa. Era domingo, o tempo estava mais do que duvidoso, mas havia um mercado que não poderíamos falhar, garantiram-nos Sofia e Paul.

Efectivamente, passámos aqui um excelente dia. O mercado era divino e o ambiente alternativo, hippie, não poderia ser mais cativante. Respirava-se “boa onda” por todo o lado. E, aparentemente, drogas não entravam no menu. Perfeito.

Ouvimos actuações musicais, vimos danças exóticas e convivemos com gente simples, feliz. Sem tempo.

Uma amiga australiana da Sofia e do Paul juntou-se-nos com o seu português de bom nível (ainda assim, aquém do apresentado pelo Paulo, que, por amor, viveu um ano em Portugal) e as saudades da terra de Camões.

Voltei agora de dois meses lá. Engordei nove quilos”, lamentava.

Garantimo-vos, solenemente, que cada grama alegadamente a mais parecia muito bem aplicada.

Almoçámos sentados no chão, na relva, a beber sumo de cana e a contemplar novo espectáculo sedutor, a 15 metros do nosso olhar.

James Cook, que em 1770 reclamou esta terra para a coroa britânica, foi o primeiro a andar por estas paragens. Vimos algumas das coisas que registou no seu diário.

Na praia, aplicámo-nos a tirar fotos engraçadas. Coisas de teenagers...

Antes de regressarmos a casa, ainda batemos uma sorna (pelo menos foi o que fiz) num vigoroso relvado na praia com vista superior para o mar.

PRIMA DA PRIMA DO MEU CUNHADO...



Desta vez, a inspecção para entrarmos na Austrália pareceu-nos bem menos rigorosa, pelo que alguns itens proibidos acabaram mesmo por passar. Sem stress ou risco de multa, pois anunciámos que trazíamos material de “risco”. Bom, ainda assim, trata-se apenas de comida, sementes e pedrinhas recolhidas nos glaciares Franz Joseph e Fox.

Cá fora, ligámos à Sofia e minutos depois lá vinha, sorridente, acompanhada de Paul.

Como diz o título, a Sofia é prima da prima do meu cunhado, o Francisco, casado com a minha irmã, a Isabel (Helena para os amigos).

Logo no facebook, por onde a contactei, mostrou uma alegria e vivacidade anormais e que confirmámos na plenitude nos dias em que nos albergaram. Kingscliff, a 100 metros do mar, com saída privativa para o “creek”, com corrente que variava com os humores da maré.

À disposição têm pranchas de surf e material de snorkling”, disse-nos. Sorrimos.

A chuva julgava que nos abatia, mas enganou-se. Apenas nos alterou substancialmente os planos. Mas nem por isso nos divertimos menos. E assim o primeiro dia foi passado a conhecer parte de um parque nacional afamado na região e a nível nacional. Ainda não temos a certeza se é um dos elogiados pela UNESCO.

Completamente encharcados, mas felizes, continuámos a divagar pela estrada até encontrarmos algo que seria impossível em Portugal: é frequente na berma das estradas os agricultores montarem uma banca onde vendem fruta e legumes. O preço está assinalado e há uma balança para pesar os produtos.

Até aqui, tudo normal, não fosse o agricultor estar na sua vidinha, sem a preocupação de receber os potenciais compradores. São os próprios clientes a escolher o que desejam. Pesam e pagam.

Qualquer um pode prevaricar, pois falta a vigilância. No entanto, ninguém o faz. É uma questão cultural. Há inúmeros princípios morais que os australianos se recusam a quebrar. Por formação. Quem age contra a natura e o bem comum, costuma pagar bem caro pela desfaçatez. Faltam exemplos destes na “tugaria”. Também por isso, afundamo-nos a pique enquanto projecto de país...

TRAIÇÃO


As praias australianas são invulgarmente belas, atractivas e por isso estão entre as mais famosas do mundo.

Ainda assim, também é verdade que este reconhecimento internacional nem sempre deriva das melhores razões. Por exemplo, a norte da Gold Coast, na região de Cairns, onde impera a idílica

grande barreira de coral, aquela palete de hipnotizantes azuis é proibida ao banhista. A menos que este goste de tubarões, ainda assim dos perigos menores desta região, polvilhada de belos animais mortíferos, entre os quais o delicioso polvo de tentáculos azuis, uma iguaria letal.

Nos anos 90, na famosa Buondi Beach, em Sydney, num dia calmo e solarengo, quatro ondas de oito metros levaram cerca de 200 incautos banhistas. Valeu que havia 50 salva-vidas em serviço (na Austrália esta é uma profissão tão desejada, como exigente e bem recompensada monetariamente) que resgataram quase todos. Apenas seis pereceram.

Igualmente insólito, em 1967, numa praia de Vitória, o Primeiro Ministro de então entrou na água e jamais foi visto. Actualmente, vários países desejariam igual sorte, mas nem todas as águas são assim traiçoeiras.

Bom, tudo isto para vos dizer que, apesar de todas as naturais precauções exigidas num país como a Austrália, estávamos determinados a passar uns dias de papo para o ar. Os planos eram perfeitos (nada mais programámos para a zona), mas ruíram minutos antes de aterrarmos. Os céus de espessos cinzentos e água abundante obrigaram-nos a alterar tudo.


GOLD COAST


Em 1933, a pacata Elston cansou-se do nome. Tinha praias fantásticas, uma beleza natural ímpar, mas naquele tempo nenhum turista viajaria centenas de quilómetros em condições difíceis so para visitar a zona.

As suas gentes juntaram-se e aprovaram a mudança de nome. Elston passou à história e assim nasceu Surfers Paradise. O nome não podia ter sido melhor escolhido. Hoje em dia, grandes nomes do surf mundial preparam as suas habilidades nestas águas, agora apinhadas de turistas. Demasiados.

Esta mudança de nome acabou por atrair cada vez mais pessoas e foi assim que as pacatas povoações vizinhas também conquistaram um lugar no desenvolvimento. Hoje em dia a Gold Coast é formada por um conjunto de cidades ao longo de cerca de 50 quilómetros de costa. Só em 1962 surgiu o primeiro prédio, mas agora Surfers Paradise já praticamente não tem casas térreas.

Consta que barões da droga australianos, criminosos japoneses e mafiosos russos, entre outros, vivem em aparatosas mansões por estas paragens. Por isso, sei que bater com o carro num Mercedes, BMW ou Porche de alta cilindrada pode ser perigoso. Melhor não discutir quando se trata de um carro de luxo. Apenas arriscaríamos a sair do carro se fosse uma das várias estrelas da sociedade australiana que optou por ter um retiro neste animado e belo cantinho do país.

Foi aqui que o avião nos trouxe, para repouso activo de uns dias.

AUCKLAND

Muitos julgam, erradamente, que esta é a capital da Nova Zelândia. De facto, Auckland é “apenas” a maior e mais desenvolvida cidade deste país dos antípodas. E, sem dúvida, a mais cosmopolita. O local que concentra mais visitantes. Felizmente, há muitos turistas que só muito tarde descobrem o éden que é a ilha sul, boa parte dela património natural da UNESCO. Assim acreditámos que não a chegarão a estragar...

Instalámo-nos a 20 metros da rua principal, onde o movimento é perpétuo. Também aqui, os restaurantes asiáticos ganharam a batalha gastronómica. Sobra a oferta. E multiplicam-se também os orientais nas ruas da cidade, que desce orgulhosa e imponente até ao mar.

Com a água no cenário, o porto dá outra vida, uma nova côr a Auckland. É nesta zona onde se sucedem bares de extremo bom gosto (todos com possantes porteiros maori), polvilhados de jovens e mais experientes, todos com a certeza que é ímpossivel passar uma noite sem diversão. A proibição de beber álcool na rua cai que nem uma luva. Grande “noite”, a de Auckland.

Tal como no resto do país, tudo parece natural. As pessoas são extremamente expansivas e comunicativas. Em escassos minutos, parece que conhecemos o interlocutor neozelandês de há já algum tempo. Esta gente faz-nos sentir em casa.

Já no contrariado regresso a casa – tínhamos de acordar às 03:30 – cruzámo-nos com um cromo italiano que se metia com tudo quanto era do sexo feminino, independentemente da beleza ou idade.

Ciao bella. You are so beautyfull. Give me a kiss”, dizia, continuadamente, a tudo o que circulava em duas pernas e não tinha barba. Falámos animadamente durante longos minutos e, mesmo algo alcoolizado, teve o bom senso de nos alertar para uma exposição de fotografia ao ar livre.

Tratava-se de “A Terra Vista do Céu”, que já a tínhamos visto em Paris e Copenhaga. Um espantoso trabalho de fotografia com imagens/reportagem belíssimas sobre tudo o que de bom e belo (e nefasto, igualmente) o nosso planeta tem (aguardei uns anos, mas a edição portuguesa já está lá em casa).

Quis saber muito de Portugal. E a verdade é que revelava já um conhecimento assinalável da realidade do nosso país.

Entretanto, encantou-se com pouco, uma vulgar espanhola com quem ficou a falar até desaparecermos no horizonte.

Programámos a ida para o aeroporto apenas com o tempo suficiente para lá chegar e fazer-mos o check in. Foi arriscado (acabámos por verificar que o foi mais do que pensávamos), mas confiámos no nosso potencial. Carro devolvido, últimos passageiros a entrar no avião de volta à Austrália.