Um despretensioso registo desta aventura nos antípodas…

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ABORIGENES


Segundo as estimativas mais credíveis, os aborígenes chegaram à Austrália há uns 60.000 anos. Muito antes do Homem moderno na Europa ou Américas. Não têm parentesco racial ou linguístico.

Sobram as teorias sobre a sua origem, mas faltam provas irrefutáveis. Todas as hipóteses defendem que chegaram por mar... mas será que dominavam as técnicas de navegação, conhecimentos náuticos que só 30 000 anos depois outros povos tiveram? E se assim fosse, porque se esqueceriam depois do mar? Os entendidos continuam a discutir a matéria...

A verdade é que foram donos e senhores da Austrália durante 97,7% do tempo em que esta foi ocupada. O Homem branco europeu apenas a domina há 0,3% desse período, o suficiente para praticamente destruir a citada cultura preservada mais antiga do mundo, este povo.

O navegador James Cook, que aqui chegou em 1770, escreveu no diário do Endeavour: “Para algumas pessoas pode parecer o povo mais miserável da terra, mas na realidade são muito mais felizes do que nós, europeus. Vivem uma tranquilidade que não é perturbada pela desigualdade da condição: a terra e o mar, por iniciativa própria, fornece-lhes tudo o que é necessário para viver.

Parecem não atribuir valor a nada do que lhes damos e nunca renunciam a nada do que têm”.

Num outro ponto, acrescenta: “Tudo o que parecerem querer de nós é que nos vamos embora”.

Em pleno século XX, eram ainda vistos como sub-humanos. Na verdade, nos anos 60, eram definidos nos manuais escolares como “criaturas bravias da selva”. Em 1967 não entraram nos sensos, pois não eram reconhecidos como habitantes.

Quando James Cook chegou à Austrália, estima-se que fossem entre 300 mil a um milhão. Sem resistências a doenças trazidas pelos colonos, não seriam mais de 60 mil em 1800, apenas 30 anos depois.

Desde inicio, foram tratados de forma cruel e desumana: retalhados para comida para os cães, abatidos, até para caça. Matar aborígenes não era crime. Até lhes ofereciam comida envenenada...

Em 1838 o jornalista Edward Smith Hall denunciou essas práticas e o governador George Gipss levou um grupo de prevaricadores a tribunal. Foram absolvidos em 15 minutos. Entretanto a campanha continuou nos Media e houve novo julgamento. Sete brancos foram enforcados em Myall Creek.

Ainda assim, a matança de aborígenes não acabou. Tornou-se apenas mais clandestina. Em determinada altura, a morte de um caçador branco de dingos (cães selvagens) levou a que a enraivecida população chacinasse, sem qualquer sentido, uma pacífica comunidade aborígene de uns 100 elementos, maioritariamente constituída por mulheres e crianças.

ULURU


Numa paisagem muito plana e surpreendentemente verde, os tons alaranjados do Uluru sob o cristalino azul do céu provocam um impacto ainda maior nos visitantes (dizem que são 400.000 por ano, mas a verdade é que nos dois dias em que lá fomos não teremos visto mais de 250, o que estraga a anunciada média).

Mal saímos de Ayers Rock, começámos a ver a imponente rocha, que estava ainda a uns 20 distantes quilómetros. Curva após curva, ia ganhando forma e dimensão. Não resistimos a fotos precoces, apanhando cada ângulo novo que se nos deparava no horizonte.

Finalmente, chegámos à sua base. Enfrentámo-la com espanto. É efectivamente grande. Monstruosa. Bela. Imponente.

O verde caminho pedestre em torno do Uluru tem 10,6 quilómetros. Sob o calor que verga, é aconselhável beber um litro de água por hora. O mais normal é esta aventura exigir cinco. Hummm... peso a mais. E não achámos que fizesse muito sentido.

O Mala walk tem apenas dois quilómetros. Foi essa a opção ao final do primeiro dia. No segundo pôr do sol que fomos contemplar ao Uluru, fizemos parte do Lungkata, com o dobro da distancia. A rocha é disforme consoante a perspectiva que dela se tem.

Ainda em Portugal, já sabíamos que não íamos subir o Uluru. Há quem o faça, mas isso é um desrespeito total para o povo aborígene. Após a vida térrea, a sua alma repousa aqui. Caminhar sobre o túmulo de outros não é propriamente a melhor forma de os homenagearmos.

O que surpreendeu foi o aviso com o pedido para não subirmos (com tantas regras castradoras na Austrália, não custava proibir esta aventura) e na face principal do Uluru ter uma espécie de corrimão para auxiliar os prevaricadores. Sem sentido.

Ao segundo dia, andámos também no Kata Tjuta. Não se trata de um, mas de vários rochedos. Igualmente um lugar sagrado para aborígenes. Sob o tal calor implacável, fizemos o Walpa Gorge e parte do Winds walk.

O Centro Cultural, na base do Uluru, conta parte da história do povo aborígene. As diferentes nações (a Austrália está dividida em vários países aborígenes), as crenças, o modo de vida. São apresentados objectos do quotidiano e um vídeo, de qualidade ultrapassada, sobre a forma como sobrevivem às adversidades desta natureza rude e exigente.

Sem dúvida, um trabalho perfeito da que é a mais antiga cultura preservada do mundo. Até que chegou o homem branco...


PIONEER RESORT


As hipóteses de estadia não eram muitas. Em comum, todas caras. Para quem já andou por locais bem “impróprios”, optar pelo “assalto” menor não é necessariamente custoso. Foi assim que a escolha recaiu, naturalmente, no pomposo, mas enganador Pioneer Resort.

Um quarto quadruplo era o que tínhamos disponível. Tocou-nos em “sorte” um francês que nos dias em que lá estivemos não saiu da habitação de modesta dimensão. Pagou cinco noites num dos mais caros locais da Austrália para estar amarrado ao portátil dia e noite. Opções...

A cozinha comunitária era deficitária de apetrechos, mas, ainda assim, conseguimos safar-nos. Aliás, o nosso primeiro jantar serviu para almoço/jantar do dia seguinte. Isto porque uma simpática família neozelandesa (não podia ser diferente) cozinhou em dose industrial nessa noite e no fim pediu-nos encarecidamente para os aliviarmos de prováveis problemas de consciência, pelo desperdício. Fizemos-lhes a vontade... Estava saborosissimo.

A jovem filha, que em 2009 viajou nove meses entre Ásia e Médio Oriente, juntou-se-nos mais tarde na piscina. Aliás, este rectângulo revelou-se mágico, pois foi nas suas cálidas águas que passámos boa parte do tempo livre no Pioneer Resort. Algum já bem após as 22:00, hora em que era suposto fechar.

Internet, impossível. Pagar um dólar por seis minutos (sim, apenas seis minutinhos) é mais do que um abuso. Fora de questão.

A primeira refeição ainda a fizemos na esplanada junto à cozinha e pista de dança (diariamente, fomos brindados com musica ao vivo), mas o chão movia-se (autenticamente) e então preferimos inovar e fomos para a climatizada sala de convívio. Muito melhor...



PS: Ahhh!! Já nos esquecíamos. O “mover-se” tem a ver com a dose industrial dos mais variados insectos que rastejam ou voam. Ao fazer a mala para partirmos, o Zé Luís não evitou que alguns simpáticos bichinhos se acomodassem no meio da roupa. Quando a reabrir, veremos quais as surpresas.

No “outback” é assim. E é para quem quer...


sábado, 11 de dezembro de 2010

AYERS ROCK


Logo que do lado oposto os passageiros colaram o nariz à janela, percebi que, desta vez, estava do lado errado do avião. As expressões de espanto sucediam-se a ritmo crescente e não era complicado perceber que as prevaricadoras objectivas (proibidas na fase final dos voos) apontavam ao Uluru, a rocha sagrada do povo aborígene.

Restava-me fazer figas e esperar que o piloto desse meia volta. Quando a asa do meu lado começou a levantar e apenas passei a ver céu, sorri. Ia ter a minha oportunidade.

O A320 da Qantas deu a volta e apontou à pista de Ayers Rock. Não foi mais de um minuto, mas os meus olhos deleitaram-se com aquele sólido alaranjado. Do outro lado, o Carlos pôde saborear o momento durante mais tempo. No lugar colado ao meu, Zé Luís não falava.

Sair do avião e sofrer o impacto de um violento soco de calor não foi agradável. Caminhar uns 50 metros até ao minúsculo hangar ainda deve ter produzido meio litro de suor. A cada um.

O transporte para Ayers Rock (minúscula povoação com três ou quatro unidades hoteleiras, um pequeno supermercado, polícia, correios, bomba de gasolina e três/quatro lojas de souvenirs) era gratuíto, mas essa generosidade ficou-se apenas por aí.

50 dólares é o que cobram aos turistas para os levar a ver o nascer ou por do sol. Uma boleia de uns 20 quilómetros paga a peso de ouro. Ou platina.

Ainda assim, nada como ter liberdade de movimentos, por isso alugámos um carro. Isso deu-nos asas para voar até onde desejássemos. Os estipulados 100 quilómetros por dia não daria para nada (pagaríamos caro os km remanescentes), pelo que pusemos o encanto natural em acção e conseguimos que o limite passasse a 250.

Estávamos prontos...

FRUSTRAÇÃO NO AR


O destino é muitas vezes cruel. Tínhamos, a muito custo, abdicado das Withsunday islands (não havia tempo razoável para podermos usufruir convenientemente dos seus encantos, património natural da UNESCO), mas ainda não sabíamos que seríamos obrigados a sobrevoá-las.

De Brisbane até ao nosso próximo destino éramos obrigados a uma escala. A norte, em Cairns, onde a grande barreira de coral (o maior “ser vivo” do planeta, espalhado numa extensão de cerca de 2.250 quilómetros) se exibe no máximo do seu esplendor.

O lugar de janela foi mais disputado do que nunca. Sob o nossa admiração estavam imagens idílicas.

Estes 300.000 km2 são compostos por 400 espécies de coral. São 3.000 recifes e mais de 600 ilhas. Aqui vivem 1500 espécies de peixes, 4.000 variedades de moluscos.

Ficou prometida uma visita. Claro que sim! Ainda nesta vida.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

PESAR E... BRISBANE


Ainda não estamos refeitos pela opção, não nos conformamos com o sacrifício, mas não tínhamos muita escolha. Queríamos ir a Arley Beach e às Withsunday islands, mas o tempo escasseava e achámos que 14 voos são mais do que suficientes nesta aventura.

Marcámos o próximo destino (propositadamente, não dizemos qual) e fizemos uns 100 quilómetros de comboio para norte, pois íamos visitar Brisbane, de onde voaríamos depois.

Disseram-nos para sair na Roma Station, mas só o fizemos na Central. Rapidamente, percebemos que deveríamos ter seguido os conselhos. Voltámos uma estação para trás, com o mesmo bilhete, já depois de termos passado o torniquete de saída. Sem prevaricar.

Saindo da estação e virando à direita, andámos uns 10 minutos até encontrarmos boa parte dos hostels de Brisbane. Caro por caro, optámos por um com piscina no topo.

Depois de gozarmos um merecido banho com uma vista muito agradável para a cidade, decidimos explorá-la a pé. Como em quase todo o lado, novamente muito bem impressionados. Uma animada “baixa”, um fantástico museu (ainda por cima, gratuito), atravessámos o rio e deparámo-nos com um conjunto de piscinas, algumas dotadas de areia de praia.

A cereja no topo de um excelente dia surgiu já no fantástico parque da cidade, onde largas centenas se dedicavam a manter a forma, seja a correr, andar de bicicleta ou praticar inúmeros desportos.

Andámos quilómetros sem fim. O sacrifício não acabou aí, pois foi complicado acabar com os dois quilos de gelado que tínhamos começado a atacar ao almoço.

O despertador acordou-nos às 04:00. Ía tudo recomeçar...

KANGURU, DIZ-ME SE ÉS MESMO TU...


Cada australiano nasceu com inaptas aptidões de sobrevivência que dão imenso jeito. Paul não foge à regra. É pau para toda a obra.

E que tal um churrasquinho ao ar livre?”, perguntou. Nem precisou ouvir a resposta. Kanguru foi a ementa. Há várias quintas que criam kangurus da mesma forma que os aviários. Neste caso, não são mal tratados em vida, mas acabam invariavelmente retalhados em bifes que são vendidos em todos os supermercados.

Na Austrália, cada pequena comunidade tem ao dispor um ou mais grelhadores/churrascos eléctricos, normalmente no meio de parques. As pessoas usam-nos e deixam-nos tão limpos quanto os encontraram.

A noite estava a cair e levámos todo o material necessário para a experiência. Nem faltaram aves exóticas a vigiar-nos, à procura de alimento. O Paul preparou um molho à “maneira” que deu um gostinho especial ao kanguru, cujo sabor é intenso e não agrada o palato de todos.

Esquecemos a mesa e banco corrido de apoio ao churrasco e comemos mesmo alí, em pé, em animada conversa. Sofia e Paul foram excepcionais...