Um despretensioso registo desta aventura nos antípodas…

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

BARCO QUE VOA, PEDRA FRIA, OLHOS PODRES…


São expressões simples como estas que nos fazem tremer por dentro. Há 500 anos, em Malaca, os portugueses deixaram raízes que perduraram até hoje. Mas a globalização bem como o desleixo e desinteresse total das autoridades portuguesas podem deixar acabar esta história de amor de luso-descendentes pela pátria que sentem como sua, mesmo nunca tendo pisado solo nacional.

Sem qualquer apoio de Portugal, os jovens malaios luso-descendentes esquecem as suas raízes. Entendem o português, mas começa a ser difícil falá-lo. Depois, naturalmente, virá o esquecimento total… e Malaca passará definitivamente à História.

Barco que voa (avião), pedra fria (gelo) ou olhos podres (olheiras) são expressões que pudemos ouvir dos senhores Pedro e Edgar, ambos septuagenários, e que orgulhosamente falam e vivem a sua portugalidade.

Impossível não nos emocionarmos com estas manifestações de afecto à pátria de gente simples do outro lado do mundo que apenas sonha em não ser esquecida deste lado do Atlântico.

Não é complicado, nem dispendioso ajudar esta gente, uma comunidade essencialmente piscatória de cerca de 1.300 elementos. Precisam de coisas tão simples como livros, manuais escolares ou roupas apropriadas para os quatro ranchos folclóricos que dançam e cantam temas portugueses. E meios para financiar diversos projectos, que a Bárbara tão estoicamente tem promovido.

A ASSOCIAÇÃO CULTURAL CORAÇÃO EM MALACA e o blogue povos-cruzados.blogspot.com têm feito o trabalho que as autoridades nacionais teimam em esquecer, mas ainda há esperança de manter e recuperar laços seculares com parte da nossa história mais brilhante enquanto Nação.

Quem quiser, puder ou souber de alguma forma de ajudar (qualquer apoio é mais do que bem vindo), basta contactar a Bárbara através do blogue ou da associação. Ou do facebook. A Associação Malaca está nos meus amigos.

Mal seja possível, teremos vídeo da Bárbara na primeira pessoa.

PORTUGUESE SETTLEMENT - MALACA


Tivesse a retirada sido feita por outro caminho e a nossa visita à comunidade portuguesa de Malaca ficaria claramente aquém das nossas expectativas.

Disse ao Zé Luís que estava na hora de retirar e furei por um novo caminho para o regresso à estrada principal quando uma doce, mas determinada voz feminina nos interrompeu.

“São portugueses?”, questionou Bárbara, com um sorriso do tamanho da sua simpatia. Imediatamente nos aproximámos, foram feitas as apresentações e em segundos a conversa já estava encadeada, sem fim à vista.

A pressa de seguir foi substituída por tranquilo almoço no restaurante do senhor Pedro (malaio, mas com raízes e alma lusitana), ao surpreendente som de cantares alentejanos.

Juntamo-nos à mesa com mais três professores locais – uma das docentes falava igualmente perfeito português – e ficámos a conhecer o trabalho da Bárbara, a ASSOCIAÇÃO CULTURAL CORAÇÃO EM MALACA, da qual é grande impulsionadora. http://povos-cruzados.blogspot.com/

Em minutos, parte da comunidade foi desfilando pelo restaurante e ficámos impressionados como malaios luso-descendentes que jamais estiveram em Portugal, mas falam a nossa língua, “vestem” os nossos costumes e sentem amor impressionante pela pátria.

Mais surpresos – ou talvez não – com o esquecimento, ostracismo a que esta comunidade de cerca de 1300 elementos é vetada por Portugal. Mais uma vez, a história das autoridades que tanto esbanjam em projectos de interesse duvidoso e que nada fazem para preservar a herança desta gente, a nossa gente, fiel há 500 anos, que se completam em 2011.

(Aguardo pelo Carlos para fotos do momento lol)

domingo, 19 de dezembro de 2010

MALACA



Estar em Kuala Lumpur e não ir a Malaca é ainda mais grave do que ir a Roma e não ver o Papa. Não quisemos cometer esse vil pecado.

Garantiram-nos que em apenas duas horas estaríamos lá. É verdade, não fosse o facto de, antes, termos de apanhar o mono-rail e depois o comboio até à central de camionagem, já na zona periférica de Kuala Lumpur. E, chegando a Malaca, ainda tivemos de apanhar mais um autocarro…

Património Mundial da UNESCO desde 2008, destaca-se da presença portuguesa “A Famosa” (a Porta de Santiago da Fortaleza de Malaca), um dos locais mais visitados e requisitados para fotografias, e a igreja de São Paulo.

Sentir a nossa história do outro lado do mundo tem sempre um significado especial. Mostra-nos como fomos empreendedores e determinados quando o mundo, enquanto conceito global, ainda estava em fase embrionária, de descoberta. Pena que nesta pátria tantas qualidades se tenham diluído, com o tempo e ambição de mentes menores.

Sob persistente chuva, percorremos a zona a pé e as t-shirts que envergávamos, propositadamente alusivas a Portugal, foram pretexto para sermos abordados várias vezes. Esta gente não esquece a passagem lusa por estas terras…



Gostei particularmente dos folclóricos riquexós, densamente ornamentados com coloridas flores e todos – sem excepção – com música própria, qual delas a mais imprópria para os nossos ouvidos ocidentais. Mas perfeitamente adequada para o cenário.

Foi em 1511 que Afonso de Albuquerque partiu de Goa (Índia) com cerca de 1.200 homens e perto de 20 navios para conquistar esta base estratégica para a expansão lusa nas Índias Orientais. Em 1641 os holandeses correram connosco, até cederem Malaca aos ingleses em 1825, por troca com uma outra cidade que lhes interessava mais, na ilha indonésia de Sumatra.

Kuala Lumpur




Abandonar Bali foi complicado. Não só pelo amargo de quem sente que havia muito mais para descobrir e experienciar, mas igualmente pelo trânsito infernal que pára a ilha a determinadas horas. Foram duas para fazer meia dúzia de quilómetros até ao aeroporto. Tivemos, por isso, de sacrificar a visita ao mais belo dos templos de Bali.

O atraso no voo fez com que chegássemos a Kuala Lumpur muito tarde. Na caminha só às 03:30, mas horas depois já estávamos a explorar a pujante capital da Malásia.

Quando unidos, calor e humidade fazem boa dupla para infernizar a vida ao viajante/turista. Só de ar condicionado se consegue aguentar alguns momentos. Mas é preciso mais do que isso para nos travar.

Desta vez, a festa na cidade foi madrasta para nós. A realização de importante prova automobilística na zona nobre da “confluência enlameada” (significado malaio para Kuala Lumpur, referindo-se à junção de dois rios, há século e meio pejados de minas) fez com que esse lado nos fosse vedado. Autenticamente. Tudo protegido até aos dentes para que o Grande Prémio da Malásia corresse na perfeição.

Foi de mono-rail que vimos parte da pujança do “tigre” asiático. Nada como apreciar das alturas uma ampla cidade que cresceu para o ar como poucas. Sobram exemplos de arquitectura arrojada e futurista, mas a que mais nos impressionou foram as torres Petronas, um dos edifícios mais altos do mundo, com 452 metros distribuídos em luminosos 88 andares.



Ao longe ou “cara a cara”, é impressionante a projecção deste “monstro” inventado pelo arquitecto argentino César Pelli. À noite, torna-se incomparável. Tem uma “luz” especial…

As torres da petrolífera malaia ficam na zona do triângulo dourado, onde Kuala Lumpur tem mais vida. Dia e noite, com um ritmo ímpar. Foi aí que nos instalámos.

O bairro chinês, que pudemos percorrer a pé, à noite, quando tem mais interesse, pelo seu animado mercado que funciona até tarde, é outro dos muitos motivos de interesse de uma cidade que exibe modernismo como poucas.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

BELEZA INTERIOR


Bali é como alguns humanos, também tem beleza interior. E foi motivados por essa descoberta que alugámos carro com motorista. Acabámos por perceber que foi, sem dúvida, a melhor opção. Nas estreitas e sinuosas estradas não há regras. Vale tudo. Todos ao monte e fé nos três deuses hindus (a Indonésia é maioritariamente muçulmana, mas Bali é uma ilha também em termos religiosos).

Ubud é opção para um turismo de desprezo pela praia e devoção à natureza. Como tudo na ilha, já muito comercial. Demasiado. Foi interessante a experiência com os macacos (às centenas num parque central, sem vedação e em contacto permanente com os visitantes). Um dos atrevidos no Mandala Wisata Wenara Wana viu volume no bolso dos meus calções e tentou roubar o que suporia ser comida. Não conseguiu. Ajudei-o e libertei-o do botão-obstáculo. Apenas encontrou um colorido mapa de Bali. Não ficou desapontado. Aliás, mais dois macacos vieram disputar a relíquia, que segundos depois já estava rasgada em pedaços mil.



Os terraços de arroz também são muito interessantes, embora seja uma paisagem “pequena”. É um feliz oásis na ilha em que é difícil ter privacidade. São dois milhões de balineses numa ilha pouco maior do que o Minho.

Em Kintamani, um vulcão imponente desliza suave até a um lago em cujas margens se situam pequenas, mas deliciosas povoações. Também aí, o comércio está ao rubro, com vendedores de rua a perseguir os turistas na tentativa de despachar qualquer coisa.

No meio de todo este encanto, pena que aqui também impere a corrupção da polícia. Nas barreiras por onde íamos passando, lá ía ficando uma nota.
“Senão, criam-me problemas constantes sempre que aqui passar”, confessa-nos o motorista.

PRIMEIRO IMPACTO EM BALI


Até à Europa e resto do mundo chegam apenas imagens de estonteante beleza. Bungalows sobre cristalinas águas guardados por esplendorosas palmeiras, vulcões imponentes, SPA's que nos levam a outro mundo... No terreno, Bali não é apenas o conto de fadas que é vendido como sonho inigualável.

Optámos por Kuta. Onde atracam boa parte dos australianos e alguns japoneses. Os europeus vão para outras zonas da ilha, asseguraram-nos.

O 100 Sunset Resort revelou-se uma excelente escolha. Apanhámos um apartamento por um terço do preço habitual (investimos “apenas” 75 euros por noite para um apartamento amplo e luxuoso com varanda para a deliciosa piscina).

O pessoal do hotel, do mais simpático possível. À parte disso, um cocktail de oferta à entrada, bem como uma massagem aos pés, a receber junto à piscina, sob uma queda de água. Tirámos o devido proveito das instalações geridas por um jovem francês.

Legian é a rua onde todos vão parar. Bares, discotecas, restaurantes e lojas sucedem-se a ritmo vertiginoso. Tal como os turistas. Aliás, foi aqui que há uns anos um atentado matou mais de uma centena. Uma das vítimas era portuguesa. No local foi erguido um memorial com o nome de todas as vítimas. Que o monumento seja fotografado, tudo bem. Agora que as pessoas se metam na fotografia com um sorriso de orelha a orelha (não vejo o prazer de recordar dessa forma um acontecimento trágico) é que já ultrapassa a minha compreensão. Adiante...

A temperatura da água do mar varia entre sopa e chá. Debatemos apaixonadamente o assunto, mas não chegámos a uma conclusão. Limitámo-nos a gozar o momento. Giro o facto de ser proibido nadar, sem que praticamente houvesse ondas. Fizemos ouvidos moucos. Divertimo-nos à grande.

MISTERIOSA MALA


“Sabem onde posso carregar o telemóvel?”, perguntou a jovem. Olhámos uns para os outros, encolhemos os ombros e, como bons portugueses, demos várias sugestões, mesmo não fazendo a minima ideia da resposta adequada.

“Estás a chegar ou a partir de Darwin”, questionei.
“Nem uma coisa, nem outra. Porquê?”, indagou.
“Estás com a mala...”
“Hã... isso é porque receio que ma roubem”, esclareceu.

Bom, esta doce menina não batia certamente muito bem da bola. Pelo andar, percebemos que a mala pesava. E não era pouco. Estava no mesmo hostel que nós, onde deixámos o portátil e outros objectos de valor no quarto. Pois bem, esta australiana de Brisbane nem a mala fechada a cadeado arrisca a deixar no quarto.

Deu para nos rirmos um pouco. As nossas manias, comparadas com esta, são queijo...