Um despretensioso registo desta aventura nos antípodas…

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sua “Majestade”



Foi há dois anos que o Kings Park de Perth teve um dos seus momentos áureos. Foi uma logística complicada. Mais de 20 homens responsáveis pela missão que incluiu viagem terrestre de seis dias. Sábado à noite era o grande momento, mas o entusiasmo foi tal que as mais de 3000 pessoas entusiasmadas com esta operação de salvamento acabaram por “bloquear” (com as viaturas estacionadas) as artérias de acesso ao Kings Park, impedindo que o TIR de significativas dimensões pudesse circular e assim completar o seu desígnio. Tudo foi transferido para a manhã seguinte.

A “jeitosa” (recupero o nome verdadeiro da espécie, mal me lembre dele) é uma senhora árvore de respeitáveis 750 anos e 37 toneladas, com 2,5 metros de diâmetro. Como ia ser abatida em nome do progresso – sobra espaço vazio na Austrália, mas a estrada tinha de passar mesmo “ali” - o Kings Park aproveitou a deixa e organizou uma gigantesca e bem sucedida operação que levou a “jeitosa” numa viagem de cerca de 3.400 quilómetros, desde o território do Norte.

Este é um exemplo perfeito do empreendedorismo dos habitantes de Perth, a cidade mais isolada do Mundo (Adelaide é a capital de estado mais próxima e está a cerca de 2700 quilómetros). Aliás, só assim se explica o sucesso de uma metrópole (entre as cinco melhor nível de vida no Mundo) em território inóspito.

A árvore desta história é apenas um dos imensos pontos de interesse do Kings Park, sem dúvida o grande ícone de Perth, a quarta maior cidade da Áustrália, com cerca de 1,7 milhões de habitantes. O capitão James Stirling fundou-a há “apenas” 180 anos, pelo que “história” centenária comparável à Europa é algo que aqui não se pode encontrar em edifícios, aliás a exemplo do que acontece em todo o país.

Perth, sem dúvida um local abençoado por uma luminosidade invulgarmente cristalina, vê-se num dia. Foi o que fizemos, aproveitando as três linhas de autocarro grátis que circulam pelos principais pontos de interesse da cidade.

O Kings Park (faltou dizer que alberga centenas de espécies endémicas de flora, das mais belas e invulgares que se possa imaginar), um saltinho a Fremantle (onde ficámos instalados) e um dia (ou mais) na Rottnest Island (por 70 dólares, meia hora de viagem até uma ilha com praias paradisíacas e uma fauna e flora típicas) são os principais pontos de interesse da zona.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Fremantle





Quando a 25 de Abril de 1829 o HMS Challenger, comandado pelo capitão Charles Fremantle, atracou na costa australiana do indico para lançar as bases de uma colónia no rio Swan, jamais pensou que a sua cidadezinha fosse das mais interessantes de toda a Austrália Ocidental.

Localizada a apenas 19 quilómetros a sudoeste de Perth, a capital do estado, “Freo” não terá mais de 40 000 habitantes, entre os quais mais de uma centena de portugueses, que se instalaram a partir da década de 50. Fugiram à pobreza e ditadura, dedicando-se essencialmente a actividades ligadas à pesca. Por isso mesmo, alguns dos bons restaurantes da cidade pertencem a lusos, que deram a merecida fama ao bacalhau por estas paragens. O Clube de Portugal, com instalações invejáveis, é o local privilegiado de encontro da comunidade.

Fremantle destaca-se pelos seus belos edifícios do século XIX, exemplarmente conservados. O comércio na “baixa” torna-se assim ainda mais interessante, pois a simpatia e simplicidade dos australianos torna-se mesmo uma das suas principais imagens de marca.

O mercado é considerado um “must”, mas só está aberto de sexta feira a domingo, pelo que é preciso esperar.

Liberdade...





Foram muitas horas – demasiadas, mesmo – em viagem. Escala em Milão, Doha e Kuala Lumpur até chegar a Perth. O pequeno incidente à chegada apenas apressou o nosso desejo de liberdade. Acima de tudo, pousar as malas e “sair”, respirar.

Instalamo-nos em Fremantle, em casa do Bruno (ampla mansão típica dos 70 com grande jardim e dois pisos), onde também vivem a Michele e o John, ambos de Sydney, a alemã Eva, o neozelandês Sam e a francesa Camile. Uma verdadeira babilónia de nações que nos recebeu de braços abertos. Mesmo não nos conhecendo de lado algum.

Chegados e instalados, em meia hora já sentíamos o ar e luz locais dar-nos novo alento à face (não posso falar do cabelo, pois... não há muito), pois saímos com bicicletas emprestadas pelos nossos anfitriões.

Em 10 minutos já respirávamos maresia e estávamos desejosos de mergulhar nas águas cristalinas das praias de Fremantle, mas não estávamos preparados. Ainda.

De seguida fomos para o centro da cidade costeira vizinha de Perth, aliás, bem mais interessante do que a capital mais isolada do mundo. Bastava aquele mar, os múltiplos barzinhos e o estilo vitoriano das casas do centro “histórico”.

Finalmente, respirámos...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Simpática rigidez australiana




Queimados de sérios dissabores na sua curta história enquanto nação, até pelos motivos mais incríveis (como no século XIX em que a importação de 24 inocentes, mas “activos” coelhos em pouco tempo se transformou num gigantesco pesadelo de muitos milhões de vorazes peludinhos a dizimar parte do mapa natural do país), os australianos não brincam em serviço.

Defensores ímpares da prevenção, os nossos vizinhos do outro lado do planeta fazem a eleição da Miss Universo parecer um desafio menor quando comparado com a árdua missão de preencher o extenso formulário de pedido de Visa. Como se isso não bastasse, a lista de produtos proibidos para entrar na ilha é indubitavelmente mais vasta do que as regas do novo acordo ortográfico luso-brasileiro.

“Em caso de duvida, marquem o SIM”, diz um aviso. E foi por isso que assinalámos alegados produtos ilegais. Lá fomos ao “castigo”, mas cedo percebemos que nada havia a recear. Curiosamente, a posse de medicamentos (alvo da nossa alegada infracção) estava equiparado a delitos menores como posse de drogas, armas ou químicos.

Na primeira vistoria, safámo-nos à justa de levarmos com um fiscal carrancudo. A agente que viu os nossos papeis era bem mais sorridente e despachou-nos em dois minutos, deixando um excelente primeiro impacto no contacto com os “aussies”.

“Que amanhã tenha um excelente aniversário e o mesmo para o seu amigo dois dias depois. Disfrutem da Austrália ao máximo”.
Faremos por isso.

PÂNICO NO AEROPORTO



O cansaço acumulado cria muitas vezes fortes dissabores. Erros que podem ser fatais. Hoje, apenas um pequeno “milagre” impediu que a aventura nos antípodas começasse muito mal. Com lição memorável. E bem fundo no nosso bolso.

“Rui Batista, Mr. Rui Batista”, ouviu-se insistentemente na instalação sonora do aeroporto de Perth, sem que eu tivesse dado por isso.
Tínhamos já cumprido com todas as formalidades burocráticas para entrar no país quando o Carlos e o Zé Luís foram levantar dinheiro. Eu abri a minha mala para pegar em barras de cereais, fechei-a, mas depois vi um sinal “free internet” e voei até ao posto para dar breve conta da nossa chegada.

Minutos depois, sou abordado pelo Carlos, em alvoroço por causa da polícia...
“Rui Batista, Mr. Rui Batista”, continuava a soar, repetidamente, nos altifalantes. E eu persistia no meu mundo autista.
Segundos antes, Carlos, quando ouviu o aviso, correu para o lugar onde era suposto eu estar. Encontrou dois agentes com ar de quem nunca teve amigos apontando para a minha mala.
“É o Rui Batista?”
“Não, mas vou chamar”.

E foi com cara de quem suspira por uma máscara ou um buraco bem fundo para me enfiar que me apresentei aos dois possantes agentes da autoridade.
Um deles pediu-me o passaporte, registou os dados, deu-me várias lições de moral e, por isso, insinuou que iria aplicar-me uma multa que jamais me faria cometer deslize semelhante.
Estava já resignado. Não queria era complicações ainda maiores nas férias, muito menos que prejudicassem os meus companheiros de viagem. O Carlos, que continuava comigo, ainda amenizou o ambiente.
No fim, ainda não sei como, deixaram-me ir... com o conselho de que não voltasse a repetir a gracinha, até porque outros meios já estavam a ser accionados.

Minutos depois, ainda mal refeito da situação, saí do terminal para perguntar a três agentes policiais informação sobre transporte para a cidade, sem reparar que um deles era precisamente um dos “amigos” que estava determinado a explodir com a minha mala.
“Então, voltou a perder a bagagem?”, questionou, atirando de seguida sonora gargalhada.

O quarteto, registe-se, foi de simpatia extrema. Um dos outros agentes chegou mesmo a pedir mais perguntas. “É para isso que me pagam, para ajudar as pessoas”.

O sol brilhava e às 08:00 a temperatura já ía nos 20 e poucos graus. Optámos por um taxi e fomos para Fremantle.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

FRASE DO DIA

Em viagem, deparamo-nos regularmente com situações e personagens interessantes. Hoje, resolvemos inaugurar o tema "frase do dia".

Discutíamos a higiene oral em longa viagem (ou ausência dela) quando alguém disparou: "Os meus dentes estão como as minhas cuecas".

Três segundos de profundo silêncio até que sonoras gargalhadas tomaram conta do ambiente.

(Obviamente, escusamo-nos a postar foto das cuecas/dentes em causa)

Entre aeroportos



No que toca à escolha “cega” de comidinha no avião, não há pai para o Carlos. Na reserva online, eu e o Zé Luís optámos pelo estilo vegetariano na Qatar airways, mas, com essa escolha, não fomos alem de arrozinho, batatas e grão embebido em molho picante. Isso de Milão para Doha. Da capital do Qatar para Kuala Lumpur (Malásia) não foi muito diferente. Até no pequeno almoço. Além de mais cheirosa e com melhor aspecto, a comida do Carlos veio ainda com “suplementos especiais”, casos de chocolates e iogurtes. No regresso, faremos ver às simpáticas meninas de bordo que Alá deveria olhar para todos por igual.

Em Doha não chegámos a sair do aeroporto – escala de apenas oito horas e visa de 30 euros (entrada única), convida-nos a visitar a cidade apenas no regresso – mas, do céu, foi possível ver como tudo parece desenhado a régua e esquadro. Aliás, característica igual à dos vários Emirados Árabes Unidos.

O nosso voo até Kuala Lumpur seguia até Pukhet. No entanto, como de costume, fartos de tempo para gastar ficámos sentados para sair no fim. Tanto o fizemos que acabamos por ser claramente os últimos a fazê-lo, perante o olhar “condescendente” das hospedeiras, que já procuravam saber quem eram os infractores. Julgaram-nos virgens, nisto dos aviões.

O primeiro contacto com o ambiente da Malásia foi quente e húmido. Estão mais de 30º e a humidade relativa é para aí de 120% (como disse um dia um anedótico comentador TV). Passar pelo controlo do passaporte foi um suplicio e quando chegámos à recolha das bagagens, só lá já estavam as nossas, guardadas por três sorridentes malaios.

10 horas apenas separam este voo do próximo (sim, é propositado evitar falar do destino seguinte) que, finalmente, nos vai levar à Austrália. Fomos vivamente desaconselhados a ir ao centro de Kuala Lumpur (“vão gastar muito tempo em viagens e no fim não estarão lá duas horas sequer”) e, por isso, seguimos directamente para o LCCT, onde a Air Asia é imperatriz. Antes de voltar a casa, estaremos cá dois dias.

Já sabemos que daqui a pouco vamos jantar no “Taste of Asia” (a comida tem excelente aspecto), difícil vai ser escolher entre as apetitosas iguarias. Sim, jantar. Estamos oito horas adiantados em relação a Portugal...

Neste momento, sacos cama no chão, corpinho estendidinho, portátil a rodar entre nós, recarregado em ficha “pirata”. O tempo passa. Lentamente.